E de repente uma fé invadira seu coração. Mesmo em controvérsia com a realidade gélida, os amores distanciados, a solidão como certeza, seu peito se encheu de uma sensação calorosa, confortante, de que o melhor iria acontecer. Poderia ser simples lapso de uma mente sonhadora, um equívoco para abrandar a realidade, mas a fé é algo que não se explica. Essa certeza é inconfundível. Cada vez que ela se aproximava de sua essência, nada no exterior poderia ser ruim demais. Suas cores sempre seriam mais fortes, mais coloridas. Seu interior era cheio de luz. O amor, por mais que distante, seria um fim previsível. E essa menina, mesmo sem a figura do amor, sempre o tivera por perto, em abundância, em seu coração.
Felicidade Clandestina
"Estou lá onde me invento e me faço:
Na arte ou na vida,
em carne, osso, lápis ou giz
onde estou não é sempre
e o que sou é por um triz."
Maria Esther Maciel
O começo do fim

Agora inicia-se na minha vida o começo de um fim. Um fim desejado, sonhado, mas mesmo assim, doloroso. Preciso ter coragem, força e não desanimar. Preciso ser a minha essência e enfrentar as sombras, para, adiante, me encher de luz. Pode parecer clichê, que seja, é o que eu sinto e é importante para mim. E clichê é apenas mais um nome que se perdeu do seu significado. Vou ser o que for, mas serei eu.
(A foto da Frida é uma homenagem, uma reverência à mulher que foi extremanete fiel a si mesma)
Ele sentia vontade de chorar, mas não sabia como. Um acontecimento triste desencadeara aquele estopim, mas ele permanecia plácido como um quadro na parede. Ele não entendia se era sua força que o mantinha em pé ou se era um descaminho, já não sabia mais de nada. Se estava perdido, se estava no caminho certo, se o que achava que sentia era mesmo a realidade. Mas, mesmo assim, ele continuou. Passou pelas pessoas na rua, sentiu o calor do dia, cumprimentou o porteiro do seu prédio com um sorriso triste, porém sincero. Sentou no sofá. Sua história prosseguia, mas não tinha certeza onde ia ou onde queria chegar, simplesmente não sabia. Naquele dia, não ligou a televisão. Sua vida inteira já passava diante de seus olhos.
Minha esperança de amor…
“Estava sentada, quieta, suando, exatamente como agora – e vejo que há alguma coisa mais séria e mais fatal e mais núcleo do que eu costumava chamar por nomes. Eu, que chamava de amor a minha esperança de amor.”
A paixão segundo G.H., Clarice Lispector
(via crushlovefever)
Ela tinha o olhar perdido no nada. Sentia uma imensa vontade de chorar o tempo inteiro, mas as lágrimas nunca brotavam de seus olhos, secos. Um deserto havia se formado ali. Um deserto com ventanias fortes, rearranjando as areias em formas diferentes. Em cada dia havia dunas em locais distintos. A cada dia os buracos arrumavam um novo canto. Do sétimo andar, ela olhava para as pessoas pela janela em um dia de chuva. Alegrava o dia cinzento os guarda-chuvas coloridos, mas, no fundo, a solidão era a tonalidade que mais se sobressaltava em sua visão. As gotas escorrendo pelo vidro da janela eram as lágrimas que nunca caiam.
Épocas difíceis. Tento abrir a alma para o mundo mas não consigo. Tudo dói, tudo cansa, tudo está demais. O ar me falta, a superfície deste mundo de água não chega nunca e eu tentando emergir. Eu cansei, mas não de vez. Cansei, mas nunca vou me paralisar. Vou respirar água se for preciso, mas nunca vou desistir.
“Once I wanted to be the greatest
No wind or waterfall could stall me
And then came the rush of the flood
Stars of night turned deep to dust”
E, de repente, uma vontade imensa de escrever. Escrever a minha alma. Eu olho ao meu redor e penso. Sublimo a dor. Extingo. Deturpo. Coisas que só eu sei e somente eu saberei. Posso gritar para o mundo, contar em detalhes: só eu saberei. Não importa. O sofrimento me alimenta. Porque eu também sou o escuro da noite.

